Há um ano que me encontrava preso naquela masmorra.
- Servir-me-ás incondicionalmente durante um ano - dissera-me ELA - e oferecer-te-ei- o céu.
Servi.
Não, porém, da forma que imaginara.
Entregou-me um conjunto de tanga e soutien e encerrou-me na masmorra que existia no torreão da sua casa, construída sobre as escarpas, junto ao mar, num país tropical desconhecido, onde cheguei vendado e anestesiado.
Rápida e autoritária, gritou-me:
- Esta será toda a roupa a que terás direito durante a semana. Vesti-la-ás sempre. Uma vez por semana sairás, para tomar banho de água fria no quarto de banho dos escravos e ser-te-á dada uma lingerie nova. Farás as tuas necessidades no balde junto ao canto e uma vez por dia sairás durante cinco minutos para o despejar e lavar. O despertador toca às sete da manhã e as luzes apagam-se às vinte e uma. Das oito ao meio dia e das quinze às dezanove estás proibido de te sentar ou deitar. Ser-te-ão servidos restos de comida três vezes por dia e haverá uma tigela com água que um escravo te trará todos os dias. Comerás sempre de gatas, sem usar as mãos. Poderás ler os livros que quiseres e escrever-me-ás um poema todos os dias, depois de permaneceres duas horas de joelhos a pensar em MIM e a amar-ME platonicamente. Estás proibido de te masturbar, a não ser que algum dos meus escravos to ordene e, se to ordenar, servi-lo-ás exactamente como te for mandado. Cada movimento e cada gesto teu será controlado pelas câmaras existentes na masmorra e serás imdiatamente expulso e abandonado apenas com a tua roupa no aeroporto de Lisboa, em caso de violação de qualquer uma das regras que acabei de te enunciar e que espero tenhas fixado. Não voltarás a ver-ME durante um ano. Talvez oiças a MINHA VOZ. Se estiveres à altura, daqui a um ano oferecer-te-ei o céu.
E saiu, fechando à chave a porta maciça da masmorra.
Cumpri. Escrevi trezentos e sessenta e cinco poemas que LHE rendiam a minha homenagem e A exaltavam até às esferas celestes.
Uma vez por semana, dois escravos DELA entravam na masmorra e espancavam-me sem piedade. Por cinquenta e duas vezes provei a régua e o chicote. Por cinquenta e duas vezes soube o que era ser castigado por um pénis rijo e poderoso que me devassava, enquanto outro se enterrava na minha garganta até ao orgasmo.
Por quatro vezes apenas, recebi autorização para me aliviar. E das quatro recebi um bilhete DELA elogiando-me o comportamento e dando-me coragem, para aguentar até ao fim.
Servi e aguentei.
E o ano passou. O dia nascera luminoso. O Sol refulgia na janela sem vidro da masmorra e o azul do mar estendia-se, sereno, até ao infinito. Ao longe, um veleiro vogava, ao sabor da brisa.
ELA entrou com todo o SEU esplendor. Umas simples calças de ganga e uma blusa branca decotada bastavam para fazer DELA uma DEUSA. Não precisava do couro nem do chicote, para se mostar dominadora e autoritária.
Ajoelhei. Ela sorriu meiga:
- Não te ajoelhes. Já me provaste o que vales.
Levou-me para a varanda sobre o mar. Sentou-me à SUA mesa e ordenou que me servissem um pequeno almoço continental.
Havia um ano que não me sentava numa cadeira e não provava o sabor de um sumo natural de frutas.
Agradeci com lágrimas e senti-me logo no prometido céu.
- Foste forte - disse-me ELA - e conquistaste-ME.
Baixei os olhos em agradecimento.
ELA prosseguiu com uma voz meiga que não LHE conhecia:
- Oferecer-te-ei tudo. Servir-ME-ás de agora em diante no meu quarto. Beijar-ME-ás a BOCA, lamber-ME-ás os PÉS, acariciar-ME-ás os SEIOS, possuir-ME-ás e terás os MEUS escravos às tuas ordens.
- O céu - murmurei, num susurro.
- O céu - confirmou ELA.
- De graça - concluí.
- Não! - corrigiu ELA - pagarás o preço mais alto que algum escravo pode pagar.
Interroguei-A com os olhos e ELA continuou:
- Tornás-te-ás vulgar e indigno de MIM, porque não soubeste renunciar e viver um amor puramente platónico. Perderás o MEU respeito, porque não soubeste sacrificar-te e preferiste o teu prazer egoísta à entrega incondiconal ao MEU poder. Perderás a MINHA admiração, porque te limitaste a ser igual aos outros. Escolheste servir-te a ti, em vez de ME servir a mim.
- Não! - interrompi-A eu, a chorar - Prefiro o inferno!
- A escolha é tua! Podes renunciar e conquistar para sempre o MEU CORAÇÃO.
- Renuncio! - gritei eu - Amo-VOS muito!
- Pensa bem. Não será fácil. O que passaste neste ano não será nada, comparado com os tormentos indizíveis que te reservo.
- Renuncio! - insisti.
- Olha que te espera um inferno sem esperança!
- Renuncio.
- Não haverá nenhum ano para acabar! Sofrerás para o resto da tua vida. Talvez nem sequer ME vejas nunca mais, embora EU te faça sentir o quão grande serás então na MINHA ALMA.
Chorei.
ELA aproximou da minha boca e dos meus olhos o decote largo, que deixavam advinhar os SEUS SEIOS DIVINOS.
- Serás capaz de renunciar ao perfume suave dos MEUS SEIOS? - interrogou-me provocante.
Chorei.
- Trocarás o toque macio da MINHA PELE, pela dor cortante do látego que te dilacerará o corpo e a alma?
Chorei.
- Trocarás o orgasmo másculo que podias ter dentro de mim, pelo orgasmo platónico de te veres, de uma vez por todas, transformada numa puta que dará prazer, sem nunca o poder ter? Trocarás para sempre o teu prazer pelo MEU prazer?
- Trocarei - respondi segurio e já sem lágrimas.
SERÁS CAPAZ? - gritou ELA. - SEM REGRESSO?
- Serei capaz!
- Para sempre? Sem regresso?
- Para sempre! Sem regresso!
E ajoelhei.
ELA tirou da carteira a coleira; apertou-a firme à volta do meu pescoço, até me cortar a respiração e arrastou-me sem piedade de novo para a masmorra.
A porta fechou-se e ouvi as voltas da chave a cerrarem a fechadura.
"Se o mundo fosse justo": foi o primeiro verso do primeiro poema do resto da minha vida.